A Hipnose de Milton Erickson

O Dr. Stephen Gilligan trabalhou em Santa Cruz com a geração que criou a PNL sob a inspiração de Richard Bandler e John Grinder. Mentores que marcaram toda a sua vida e o seu trabalho em hipnose e psicoterapia foram Gregory Bateson e Milton Erickson. Após o doutoramento ele foi um dos principais professores e praticantes no mundo de hipnose ericksoniana. Esta entrevista de Chris e Jules Collingwood já tem alguns anos mas parece-nos fundamental para perceber a sua considerável contribuição no campo do transe e fornece-nos uma imagem de Milton Erickson como só poderia ser dada por alguém que viveu a seu lado. 

Qual era o ambiente quando frequentou a Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC)?

Segui cursos na Universidade da Califórnia entre 1972 e 1977. Eram tempos bastante selvagens. Havia muitas áreas de atividade política de características radicais, t-groups, o movimento da psicologia humanista, os começos da ecologia e do feminismo, a presença de pessoas como Gregory Bateson e Norman O Brown, e assim por diante. A Universidade da Califórnia era a resposta para as revoltas da Universidade de Berkeley, que tinha explodido, entre outras coisas, pela falta de atenção dada aos sob diplomados. Santa Cruz foi um campus experimental sem diplomas, muito aberto, situado entre florestas de sequoias, e que forneceu recursos significativos e uma enorme liberdade para experiências. Neste ambiente, John Grinder era um professor assistente em linguística, muito interessado em mudança radical tanto a nível individual como coletivo. Conheci John na época em que ele se associou a Richard Bandler que era na altura um terapeuta rebelde de orientação Gestalt praticando nas Montanhas de Santa Cruz. Participei nos seus primeiros seminários e nos primeiros grupos de pesquisa, de 1974 até 1977, altura em que saí Santa Cruz para ir para a Universidade de Stanford. Éramos cerca de uma dúzia, a maioria estudantes de Santa Cruz, pessoas como Leslie Cameron, Judy Delozier, Paul Carter, Frank Pucelik e David Gordon. Robert Dilts chegou por volta de 1976, se bem me lembro. Era a época da PNL antes da PNL, onde nasceram os modelos Meta e Milton. O mínimo que posso dizer é que era uma época bastante selvagem e experimental.

Para um estudante, como foi a sensação de entrar no mundo de Milton Erickson?

Incrível. Surpreendente. Eu tinha 19 anos. Milton Erickson tocou um lugar profundo na minha alma e acendeu um fogo dentro de mim. Nunca mais se apagou apesar dos meus momentos de falta de atenção e negligência. Sempre estive muito interessado em estados alterados de consciência e eu era muito talentoso. Tendo crescido no meio de uma família alcoólica de americanos irlandeses vivi muitas vezes em estado de transe. Não sabia sobre muitas outras coisas, mas sabia muito sobre transe. Erickson foi a primeira pessoa que encontrei claramente capaz de me fazer dar piruetas no campo das habilidades hipnóticas. De certa forma, eu soube imediatamente que tinha acabado de encontrar o meu professor.

Mas a sua forma de usar as suas competências em hipnose foi talvez ainda mais significativa. Ele incorporava os aspetos curativos do trance e não apenas os aspetos dissociativos. Eu só sabia utilizar o transe para fugir às coisas dolorosas, aos traumatismos, à família, à vida ela mesmo enquanto Milton usava o transe, para si mesmo e para os outros, para se reconectar com o mundo. Esta é uma diferença extraordinária que continuo a apreciar cerca de 25 anos mais tarde. Na realidade esta é a base do trabalho de transe: como utilizar o que as pessoas usam para fugir ao mundo para, em vez disso, ajudá-las a voltar ao mundo de uma maneira centrada e eficaz.

Como foi apresentado a Milton Erickson?

Gregory Bateson e Milton Erickson eram amigos até 1932, quando Bateson e Mead foram para Bali estudar os transes ritualísticos. Antes de partirem consultaram o jovem Milton Erickson, que no momento era psiquiatra em Detroit, acerca do processo de transe. A partir deste encontro Erikson criou uma relação para toda a vida tanto com Bateson como com Mead.

Bateson vivia na mesma propriedade que Bandler e Grinder nas Montanhas de Santa Cruz. Quando leu o seu primeiro livro, “Estrutura da Magia 1”, Bateson gostou tanto que os aconselhou, se queriam realmente saber algo sobre comunicação, a irem ir visitar o grande “homem roxo” que vivia no deserto de Poenix. Assim fizeram e voltaram com histórias que agitaram qualquer coisa de profundo em mim. Quando mais tarde, nos finais de 1974, voltaram a visitar Erickson, eles convidaram-me a acompanhá-los. Ao fim de cinco dias com Erickson pedi-lhe se podia voltar para estudar com ele. Ele concordou e assim começou um processo de cinco anos durante o qual voei regularmente para Phoenix e lá ficava para estadias de 2 a 10 dias. Muitas vezes ficava alojado em sua casa e nunca me cobrou um centavo, o que foi fabuloso porque naquela época eu era um estudante sem um tostão!

Fiquei profundamente comovido pela sua generosidade e perguntei-lhe, mais de uma vez, como poderia um dia retribuir-lhe. Respondia que, se pelo menos uma das coisas que aprendesse com ele tivesse sido útil para mim, eu poderia recompensá-lo transmitindo-a a outras pessoas. Que bom negócio para mim sobre todos os pontos de vista!

Quais foram as suas primeiras impressões de Milton Erickson?

Ele era um mágico incrível com extraordinários resultados de cura e um homem de idade engraçado. Sua presença hipnótica era bastante forte, como um velho xamã. Claro, eu ficava nervoso na sua presença, mas isso resolvia-se facilmente entrando em transe profundo! Era aliás o procedimento padrão à volta de Milton: se estivesse perto dele, entraria em transe…

E quais são as impressões duradouras que guardou de Milton Erickson?

Faz agora 25 anos que conheci Milton Erickson (NT. Artigo de 1999). Em todos estes anos raramente passa um dia em que não aprecie algo que ele me transmitiu. Mas a minha relação com ele é muito diferente do era que no começo. Vejo-o mais como pessoa muito corajosa, muito provocativa, muito gentil, muito criativa e humana. Acho que foi um verdadeiro revolucionário no campo da psicoterapia. Mas vejo-o agora como um ser humano com os seus pontos fortes bem como falhas. Este último ponto é importante, porque a minha relutância em reconhecer as suas falhas levou-me durante muitos anos a não aceitar os meus próprios pontos fracos. E sem esta humildade penso que não seja verdadeiramente possível crescer muito.

Penso que a sua dádiva mais constante foi aquilo a que chamou a ideia de utilização: não importa o quê tudo pode ser usado para o crescimento positivo, não importa quanto possa parecer doentio, louco, ou desarmonioso. Por exemplo, Erickson trabalhou 20 anos nas unidades fechadas de hospitais psiquiátricos. Um rapaz insistia que era Jesus Cristo apesar de todos os esforços da equipa médica para convencê-la de outra coisa. Erickson apresentou-se a “Jesus”, informou-o que havia uma nova unidade a ser construída no hospital e que precisava de carpinteiros, e levou “Jesus” a ir trabalhar lá como carpinteiro. Este trabalho pô-lo em contacto com outras pessoas, o que o trouxe de volta para a realidade comum.

Outro paciente, uma mulher muito deprimida e suicida, estava convencida de que nenhum homem poderia sentir-se atraído por ela por causa de um largo espaço entre os seus dois dentes da frente. Erickson pediu-lhe para se treinar a cuspir água pelo espaço entre os dentes até que pudesse alcançar um alvo a 20 metros. Ele então levou-a a esconder-se perto do bebedouro de água fresca no seu escritório, até que um certo jovem se aproximasse para beber. Seguindo as instruções de Erickson, ela saiu do seu esconderijo e esguichou-lhe um jato de água através do intervalo entre os seus dentes e fugiu. Ele correu atrás dela e pediu-lhe um encontro. Como todas as boas histórias de Erickson, eles casaram-se pouco tempo depois e tiveram seis filhos cuspidores de água.

Há tantos exemplos como estes que ilustram este princípio básico de Erickson: encontrar uma forma de aceitar e usar tudo o que está presente, especialmente o que permanecerá presente e se vá repetir.

Que diferenças existem entre a hipnose Ericksoniana e hipnose convencional?

Pode ler o meu primeiro livro “Therapeutic trances” para uma visão detalhada das diferenças. Ressaltaria aqui duas diferenças principais. Primeiramente, a hipnose convencional vê o transe como um objeto fabricado resultante das sugestões hipnóticas, enquanto a hipnose ericksoniana vê o transe como um estado psicobiológico natural resultante dos acontecimentos da vida. Na verdade, a hipnose tradicional considera que o transe é pura e simplesmente o resultado das sugestões do hipnotizador. Portanto ela não se pode produzir até que a situação definida como “hipnose” e alguém chamado de “hipnotizador” pratica algo chamado “técnica hipnótica” com alguém chamado de “ sujeito.”

Ao contrário da hipnose tradicional, Erickson insistia sobre o facto de que o transe ocorre com ou sem hipnotizador. (O transe toma conta de nós, quer queiramos quer não…). A minha melhor interpretação é que o transe é um estado de aprendizagem individual que ocorre quando a identidade é ameaçada, perturbada ou se deve reorganizar. Isto pode acontecer em numerosas situações: traumatismo, períodos de mudança na vida da pessoa (nascimento, morte, doença, diplomas, casamento, divórcio…), contextos de incerteza. Em tais momentos a identidade normal de uma pessoa não está equipada para responder de maneira adequada à situação. Por exemplo, se você tem uma identidade como pessoa sozinha e ao casar-se, a sua antiga identidade não pode realmente lidar com o novo desafio. Portanto temos necessidade de um processo que nos permita largar a identidade antiga e entrar num estado onde uma nova identidade pode ser gerada. O transe é o estado de recursos natural precisamente para estes momentos. A hipnose é uma das tradições sociais que podem proporcionar um espaço ritualístico para receber e orientar o processo de transe para caminhos úteis. Por consequência, você compreende agora que um hipnotizador ericksoniano procura onde e como o transe já está a acontecer em vez de criar um artificialmente.

A segunda diferença é que a hipnose tradicional pensa geralmente transe no singular, enquanto a hipnose ericksoniana enfatiza sempre a pluralidade. Nenhum transe é igual. Erickson salientou o quanto cada pessoa é radicalmente única, o que se manifesta realmente no transe. Gosto de esclarecer os meus clientes (com certo humor irlandês) do meu “diagnóstico”: – Você desvia-se incurávelmente da norma e cada dia está a ficar pior! (Isso quer dizer que o que eles sabem fazer, experimentar e expressar, é diferente do que todo o mundo já conheceu). – As suas tentativas para integrar definições de “sucesso” ou “normalidade” de qualquer outra pessoa falharam miseravelmente, e legitimamente! (Mas, novamente, isto é dito com uma faísca de humor irlandês).

Esta singularidade é tão evidente em transe: cada pessoa vive-o de forma diferente. Por exemplo, é muito comum que uma pessoa em transe no meu escritório diga qualquer coisa como: “Wow! Acaba de ter lugar a coisa mais incrível “. A pessoa descreve o que aconteceu, e pergunta: “Isto acontece em transe com toda a gente? “. Sou muitas vezes obrigado a responder que, nestas dezenas de anos de trabalho com transe, esta é a primeira vez que vejo alguém ter uma experiência assim. Para mim é este um dos grandes valores do transe: você mete de lado a sua mente consciente, que é basicamente uma construção social conservadora, e explora o espírito de uma experiência arquétipa que é muito mais artística e única.

O que é o transe profundo de identificação (DTI) e como aprendeu a praticá-lo?

O transe profundo de identificação é um processo hipnótico em que uma pessoa desenvolve um transe profundo, indo para um espaço de segurança, deixa de lado sua personalidade habitual e assume uma outra personalidade por 30 minutos ou mais. A personalidade de identificação pode ser uma pessoa que você conhece, o seu companheiro, um cliente, um mentor, ou alguém que você não conhece, uma pessoa famosa ou uma figura histórica, por exemplo. Num dos meus seminários, algumas das personagens selecionadas incluíam Milton Erickson, Buda, um poeta famoso, um pianista clássico, a esposa de alguém. Uma vez que entrou na identificação de transe, você pode interagir e conversar com outras pessoas no espaço ritual desse personagem.

Alguns dos efeitos podem ser bastante surpreendentes. Primeiro, há a liberdade que todos podem alcançar libertando-se da identidade normal, das nossas maneiras habituais de pensar inconscientes, da maneira como segura um copo, forma de falar, reagir, etc … Quando sai da sua identidade normal, o seu sentido de si global pode descer para um nível mais profundo, um nível que não altera o conteúdo de uma identidade particular. Penso que isto permite-nos tomarmo-nos conscientes de um nível de identidade completamente diferente, o que Bateson denominava uma “aprendizagem de 3º e 4º grau”.

O segundo efeito está relacionado com a identificação ao personagem no qual deslizamos. Podemos modelar tanto a partir de um espaço interior como de um espaço exterior e talvez até mesmo numa dimensão mais ampla, algo a que chamo “modelagem baseada no campo.” Podemos sentir os padrões com uma forma diferente de sentir os padrões, se isto faz algum sentido. É uma experiência verdadeiramente incrível.

Aprendi o transe profundo de identificação durante os meus primeiros tempos de estudo com Erickson. Aconteceu na minha época Bandler / Grinder, nós tentávamos todas as espécies de experiências extremas no campo da consciência. Tínhamos lido qualquer coisa sobre as experiências realizadas por um tipo chamado Raikov na Rússia, que tinha hipnotizado umas pessoas e fez transe profundo de identificação com pintores como Rembrandt e depois pô-los a pintar. As pessoas sujeitas ao transe de identificação, após serem avaliados por um júri, eram bem melhores que as que não tinham sido hipnotizadas.

Pensámos que poderia ser interessante para mim experimentar com Erickson. Bateson chegou durante a primeira vez em que eu praticava. Como disse, ele era um grande amigo de Erickson e foi também meu professor. Ora provou-se que quando eu estava a falar com ele como “Erickson” compartilhei algumas informações que eles tinham realmente trocado entre eles e que se tinha mantido privadas. Não sei quais são as conclusões a tirar mas posso dizer que este processo é interessante e enriquecedor. Uso o processo de identificação quando me sinto bloqueado com um cliente ou num relacionamento pessoal. Quando não tenho uma profunda compreensão do espaço do outro, faço então o processo de identificação quando estou sozinho. Ao entrar no espaço da pessoa e ao experimentar a sua maneira de conhecer e sentir torna-se mais fácil encontrar maneiras de se conectar.

Com que é que se parece esse transe profundo de identificação na modelagem de Milton Erickson?

Logo que abri os olhos pela primeira vez como Milton Erickson tive uma experiência muito profunda. De uma forma ou de outra eu podia sentir tão fortemente que todos na sala tinham um inconsciente e que todos tinham o desejo de se conectar a esse inconsciente: portanto, cada um estava apenas um passo do transe. A questão não era pôr em prática alguma grande técnica mas tocar esse lugar neles em que estava presente o desejo de conexão a si mesmos. Acho que neste estado eu estava tão conectado ao inconsciente que não só podia sentir a sua presença em mim como, com a mesma facilidade, também nas outras pessoas. Neste espaço as palavras pareciam fluir sozinhas. Absorvia-me algo mais fundamental que as palavras, difícil dizer do que se tratava, um ritmo básico ou um batimento ou algo assim. Era tão claro que toda a gente podia e iria desenvolver um transe. Uma experiência verdadeiramente prodigiosa. De certa forma, o meu ego estava de fora, não era eu que estava fazendo algo para essas pessoas, mas era mais uma conexão profunda com o espírito da vida. Isso deve parecer um pouco vago, mas é mais ou menos como o vivenciei. Mudou a minha perceção da maneira de como se faz transe.

Que conselho daria a alguém que se queira tornar fluente em hipnose Ericksoniana?

Saiba como localizar a sua mente dentro de seu corpo e no interior do campo vivo da conexão relacional. Tenha confiança no fato de que possui múltiplos cérebros e não apenas aquele na sua cabeça, mas também em todo o seu corpo inteiro, o seu coração e o seu intestino. Eu chamo a isso uma relação incarnada. Infelizmente a maioria de nós são treinados desde muito jovens a desligar as nossas mentes de nossos corpos e do mundo que nos rodeia. Associamos em primeiro lugar a nossa mente ao nosso eu intelectual desincarnado. Nós não podemos praticar hipnose a partir desse lugar. A hipnose ericksoniana implica ser capaz de aceitar e estar disposto a trabalhar com tudo o que possa estar presente. O problema é a solução. Dizemos: qualquer que seja o problema com o qual a pessoa está lutando, é o que vai permitir que, não apenas entre em transe, mas também desenvolver novos modos de conhecimento e ação. Este é o princípio básico ericksoniano: – acolher o que está presente, seja o que for, a qualquer momento, colocar o corpo/mente em harmonia com isso, e tornar-se curioso sobre como o processo continuará a desenvolver-se numa direção positiva. Para fazer isso você deve trazer a sua mente para o campo do momento presente.

Gregory Bateson fez alusão a este processo ao falar de Erickson numa entrevista com um dos seus estudantes, Brad Kenney. A entrevista teve lugar em 1976, quando o trabalho de Erickson começou a ser conhecido por um público mais vasto. O nome de Erickson foi falado na entrevista e Kenney perguntou se ele o tinha visto recentemente. Bateson disse que não, que acabara de ouvir falar dele através dos muitos alunos que ele lhe enviara. Kenney questionou-o sobre a sua opinião acerca dos livros publicados sobre Erickson e Bateson e suspirou, com o seu arquétipo suspiro Inglês. Disse que detestava e que lamentava ter enviado pessoas a Erickson e que nunca mais o faria. Quando Kenney lhe pediu para explicar, Bateson respondeu que Erickson tinha uma maneira de entrar tão totalmente num sistema antes de agir, que não era mais um ego separado do sistema, mas uma parte da ” tapeçaria do complexo total “. Por consequência, as suas técnicas vinham de dentro desse tecido e harmonizavam-se com ele.

Bateson disse que as pessoas estudavam Erickson a partir da epistemologia tradicional ocidental de um observador externo agindo sobre um sistema. Eles compreendiam então o trabalho de Erickson como um ego aplicando uma coleção de truques a um sistema a partir do exterior. Isto criou uma espécie de jogo de poder e uma incompreensão que Bateson detestava. Tendo a concordar com esta declaração um tanto severa de Bateson. É por isso que nos meus seminários passamos muito tempo a trabalhar sobre a forma de reorganizar a atenção do eu relacional, algo que permite uma perceção a partir de um campo mais vasto do que a primeira posição de “eu” ou da segunda posição do “tu”.

Por exemplo, trabalhamos para desenvolver as nossas habilidades em cinco princípios de atenção: descer (no seu centro); amolecer (relaxar o corpo); alargar (estender o seu campo de perceção); conectar (deixar a sua mente sentir uma conexão com outras mentes), e criar o vazio (apagar do campo de sua consciência) qualquer imagem fixa, pensamento, submodalidades. Quando conseguir fazer isso, você está pronto para uma recetividade criativa “no campo”.

Naturalmente, o seu próprio trabalho mudou em relação ao que havia deixado Erickson. Vivemos em um mundo social diferente agora. Pode descrever o seu trabalho atual?

Há cerca de 8 anos o meu pai morreu e minha filha nasceu. Isso gerou um processo maior de morte/renascimento em mim. De repente, eu já não era o filho de alguém, eu era o pai de alguém. Disse a mim mesmo que era altura de parar de usar Erickson como uma espécie de pai de substituição. Era tempo de começar a empregar a minha própria voz, e não deitar-lhe as responsabilidades para cima! Assim, nos últimos oito anos desenvolvi a abordagem das Relações do Self. Ela é descrita no meu livro mais recente, “The courage to Love, Principles and Practices of Self-Relations Psychotherapy”

(NT. Esta entrevista foi dada em 1999. Entretanto Stephen publicou novos trabalhos entre os quais:” Generative Trance – The experience of Creative Flow”)

O trabalho nas ”Self-Relations” difere da herança ericksoniana pelo menos de três maneiras:

A primeira é a integração do que chamaremos a “função de Erickson” dentro do cliente. Erickson dizia sempre que o inconsciente era muito inteligente mas nunca explicou por que é que a pessoa estava agindo tão estupidamente antes que Erickson aparecesse em cena. Sinto que ele estava a cometer o erro tipicamente ocidental de não incluir o observador (ele mesmo) na observação: ou seja, não era tanto “unicamente o inconsciente do cliente” que era inteligente – o bilhete premiado era mais “o inconsciente do cliente na relação com Erickson.” Admitindo que tenha realmente funcionado assim, a questão é se o que Erickson fazia (a “função Erickson”) seja lá o que isso for, poderia ser aprendida por outros e, particularmente, pelo próprio cliente. Não poderia então o cliente aprender a conviver com o seu inconsciente tal como Erickson fazia? E em caso afirmativo, qual a voz a acompanhá-lo: a de um tipo morto ou a sua própria voz? Com todo o respeito para com Erickson (e ele merece-o muito), é bom saber que se pode localizar e desenvolver em si mesmo a função Erickson. Tentamos fazer isso em Self-Relations.

A segunda diferença é a incarnação do inconsciente no corpo. No trabalho de Erickson, o inconsciente tinha muitas vezes uma forma um tanto etérea. Era como se estivesse pairando no ar. Nas Self-Relations colocamos o acento na vida como uma arte cénica e observamos como os atores, dançarinos, atletas, artistas, vivem a experiência do seu “inconsciente criativo” e o organizam. Vemos a importância da encarnação e enfatizamos muito mais a experiência somática em relação com inconsciente do que Erickson o fazia. Por exemplo, através da análise dos estados de bem-estar que esperamos replicar em outros contextos, perguntamos: “Quando sente esse estado de bem-estar e eficiência, onde no seu corpo sente o seu centro? “. Procuramos como nos reconectar com este centro em situações difíceis.

Paralelamente, explorando os problemas, pomos uma questão fundamental: “quando vivencia o problema, onde no corpo você sente o centro de desconforto? “. A maioria das pessoas designa o seu coração, o plexo solar ou estômago. Trabalhamos com isso, descobrindo como se harmonizar para que se revele o inconsciente criativo em ação. O que chamamos “patrocínio” (sponsoring) é necessário para revelar a sua contribuição positiva.

A terceira diferença tem a ver com o “campo criativo.” No trabalho de Erickson, as pessoas entravam num transe que geralmente se afastava do mundo. Na verdade, você tem que fechar os olhos, não se mexer mais e cortar a ligação com o exterior. Um monte de coisas interessantes e úteis podem acontecer neste estado mas o seu desempenho é limitado. Não é o recurso eficaz se precisa reagir rapidamente a uma situação social difícil, por exemplo, se alguém o ataca ou critica ou se for solicitado para resolver imediatamente um problema. Por isso, deslocamos o transe de uma zona afastada do “aqui” para a zona do aqui e agora.

Muitas destas coisas vêm de aulas de aikido que intensamente pratico. Em aikido, se você se concentra no acesso ocular, ou fechar os olhos, ou mesmo pensar quando é atacado, acaba no chão. Pode levar uma surra! Em vez de se voltar para dentro, permite que a sua mente se espraia no campo que o contém a si, ao seu parceiro, e muitas outras presenças. As pessoas conhecem este campo quando experimentam um bem-estar profundo. Pense nas experiências em que se sente mais conectado consigo mesmo, e observe onde acaba o seu Self em tais experiências. As Self-Relations procuram treinar as pessoas a acederem aol campo e a trabalhar nele. Num certo sentido, era lá onde Erickson trabalhava, ele não ia no transe, ele ia “para além do transe”, mais e mais amplamente consciente, poderíamos dizer. Em Self-Relations apoiamo-nos realmente nisso, muito mais do que Erickson o fazia, penso eu.

 

Chriss e Jules Collingwood, Austrália 1999

(Publicado com a permissão de Stephen Gilligan)

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