Uma entrevista com Lucas Derks

Lucas, pode definir-nos o Panorama Social em três palavras? 

Representação das Relações Sociais.

O Panorama Social é ainda um termo estranho para muitas pessoas. Em que consiste? Posto num grande quadro, em sentido lato?

Quando ama uma pessoa, está ciente dos seus sentimentos. No entanto, a imagem visual que usa para “amar” tem qualidades particulares: Você deverá ter de representar essa pessoa amada numa “LOVE-LOCATION” no seu espaço mental. Isso significa que vai colocar a imagem da pessoa amada – do tipo hemisfério direito e de forma inconsciente – provavelmente muito perto de si. O panorama social mostra que criamos uma imagem das pessoas ao nosso redor. Onde essas pessoas se localizam no panorama irá reger a qualidade emocional do relacionamento.

Com a ajuda desta “invenção” um coach ou um terapeuta pode analisar e melhorar a vida social de um cliente.

Quando, como e porque nasceu o Panorama Social?

Licenciei-me e fui treinado como psicólogo social. A partir de 1977 e depois de me ter cruzado com a PNL, perguntei a mim mesmo como poderia esta disciplina trabalhar as relações sociais humanas. Em 1994, percebi que a “submodalidade” localização era crucial na experiência social. Daí nasceu o Panorama Social. Depois de vários anos de delicadas experiências o panorama social tornou-se mais estruturado. Por volta de 2002 atingiu a sua forma atual, embora em processo de contínuo desenvolvimento.

Existem aqui muitas semelhanças com as constelações sistémicas…  

Para minha sorte, descobri as constelações familiares vários anos depois do cerne do panorama social. Verifiquei então que fazia uso dos mesmos princípios espaciais. Mas para as constelações familiares, o aspeto espacial não está tanto em destaque: A tendência nas constelações é usar outros modelos explicativos, como o “sistema”, “sistemas de alma” ou o “campo”. A sua referência é a “constelação” e não o “imaginário social espacial” na mente do cliente que é a característica do panorama social.

As pessoas das constelações familiares dizem, ah … o panorama social são constelações na mente. Eu digo: Não. Uma constelação é tornar o panorama social de alguém visível com a ajuda de representantes tais como os símbolos para os elementos em questão

Há pessoas que conseguem combinar a força de ambos os modelos e há outras que ficam presas nas diferentes filosofias de fundo. Algumas pessoas adoram brincar com constelações e com as experiências espirituais coletivas que ocorrem dessa forma. Outros veem as limitações desse modelo e preferem a abordagem mais pragmática do panorama social.

O confronto entre os dois modelos foi muito inspirador para mim.

O Panorama Social é empírico ou espiritual? 

O panorama social é um fenómeno psicológico, é a forma como as pessoas criam seu modelo do mundo social. Parte desse mundo social, que chamamos o “panorama espiritual”, lida com deuses, espíritos e os mortos.

A pesquisa para o panorama social é, em parte empírica. Mas para muitos cientistas, no entanto, está ainda muito longe.

Como é que a ciência olha para o Panorama Social? Com desconfiança ou como um aliado?

Sempre me considerei um cientista e sou muito positivo acerca do panorama social. Em psicologia cognitiva existe uma área chamada cognição espacial. Estes cientistas estão à beira de descobrir muitas coisas que estão incluídas no panorama social. Para eles isso encaixa-se na “proto-ciência”, que é onde as novas hipóteses são formuladas que não se enquadram nos paradigmas atuais. Para um cientista, não é muito interessante movimentar-se em “proto-ciência”, pois os seus colegas tendem a ter medo deles. A “proto-ciência” cria incerteza.

Como e em que podemos aplicar o Panorama Social no nosso dia-a-dia?

O leque de aplicação do panorama social é tão vasto quanto as relações sociais que as pessoas têm. Assim onde quer que as pessoas vivam e trabalhem juntas criam estas paisagens sociais. E podem ter todos os tipos de problemas com os outros, ciúme, amor não correspondido, falta de confiança nos negócios, luta pelo poder, etc.

Para uma pessoa formada no panorama social, abre-se a possibilidade de mudar intencionalmente o seu panorama social, o que pode significar que a sua vida estará livre de certas tensões e conflitos com os outros.

O que muda nas nossas vidas com a aplicação do Panorama Social? Recriamos o nosso mundo?  

O panorama social não é apenas sobre os outros, mas também sobre nós mesmos. Parte do trabalho é dirigido para melhorar as nossas autorrepresentações inconscientes. Assim, podemos melhorar a forma como olhamos para nós mesmos.

O trabalho com a autoimagem é frequentemente muito crítico para as pessoas. Mas, de facto, podemos usar o panorama social num sentido mais amplo. O nosso lugar na sociedade resultou em grande parte de como criamos a nossa própria posição entre os outros e o conjunto desta paisagem pode ser melhorado. E isto pode fazer uma enorme diferença para uma pessoa.

Podemos então dizer que a chave de qualquer relação bem-sucedida seja em que área for das nossas vidas, é a sua localização mental? 

Ao longo dos últimos dois anos, tenho vindo a trabalhar num conceito mais amplo em torno do mesmo fenómeno: chama-se Psicologia do Espaço Mental. Começa com o reconhecimento de que a estrutura espacial, não só é fundamental no nosso modelo social do mundo, mas é o núcleo de tudo o que pensamos. Esta ideia é apoiada por pesquisadores como Barbara Tverky, que já explora a cognição espacial desde 1991.

Antes de um embrião usar a linguagem, ele usa o espaço para organizar o seu conhecimento. Mais tarde, vem a estrutura linguística. No entanto, muito restará espacial e vai ficar fora da linguagem, provavelmente, em grande parte processado no hemisfério direito no fundo da nossa consciência.

Assim, quando consideramos a importância da localização desta maneira geral, então é ONDE nós pensamos muitos pensamentos, que vai criar ou destruir a nossa felicidade.

Lucas quer dizer que nós nos relacionamos com um mundo que não é real, ou seja, é real nas nossas mentes e por isso facilmente alterável?  

Exatamente. Essa era a ideia principal de Korszybski. Essa é a base da PNL e também da Terapia Cognitiva Comportamental. Criamos um modelo do mundo que é apenas o que nós sabemos. Nós somos prisioneiros da prisão que criamos para nós mesmos. Quando acreditamos que conhecemos o nosso parceiro … esperem até ela ou ele nos trair com outra pessoa!

Isso pode revelar o quão pouco sabemos. Nós amamos e casamo-nos com o nosso próprio modelo mental do nosso parceiro, não com um ser humano real.

Pode ser aplicado a partir de que idade?

Depende sobretudo da aptidão comunicativa do terapeuta. Provavelmente, as crianças pequenas têm modelos já espaciais dos seus relacionamentos com os quais se pode trabalhar. Se se souber como chegar a uma criança, pode-se trabalhar com essas imagens. Digamos que … com três anos?

Quem pode aplicar?

Master Practitioners em PNL são mais adequados para este trabalho. Pessoas que tenham como experiência apenas constelações tendem a ser agressivas. Eles querem fazer o trabalho para o cliente. Já um especialista em PNL é preguiçosos o suficiente para permitir que o cliente faça o trabalho. Isso funciona melhor.

Que cuidados devemos ter? 

Quando deixamos o cliente encontrar as soluções, dificilmente algo pode correr mal. É claro que a ecologia tem de ir sendo testada uma vez que as alterações feitas podem ter enormes implicações para a vida das pessoas.

O que acrescenta o Panorama Social à PNL?

Para mim, o panorama social é uma ferramenta da PNL para trabalhar com as questões sociais. Expande aquilo que a PNL já pode fazer. Mas o panorama social usa os mesmos pressupostos e muitas das técnicas do panorama social têm técnicas de PNL como raiz.

São disciplinas que se complementam ou podem viver isoladas?

Para muitos practitioners e master practitioners o panorama social oferece possibilidades adicionais. Alguns dizem que o aplicam com mais de metade dos seus clientes.

Quase a terminar… no mundo atual, em que existem tantos conflitos entre os povos, o Panorama Social pode ajudar a acrescentar fatores de personificação que permitam criar uma identidade comum? 

Absolutamente. Mas como a maioria das pessoas no poder prefere falar a escutar, tendem a auto excluir-se de um conhecimento útil como este. Os políticos poderiam fazer trabalho precioso se entendessem como eles e os outros criam o mundo social. Bons mediadores e pacificadores usaram ideias semelhantes. Ideologias pacíficas, como o budismo partilham muitos conceitos com o modelo panorama social.

Agora sim, para finalizar, ainda há espaço para o Panorama Social crescer? Para onde?

O Panorama Social encontrará o seu lugar dentro de “cognição social espacial”. Será uma mudança total de paradigma quando a Psicologia do Espaço Mental for reconhecida no mundo académico. Estou a trabalhar num Doutoramento (PhD) para ajudar a que isso aconteça. Mas as coisas tendem a ir devagar, apesar de toda a ideia de cognições incorporadas que se tornam dominantes no momento encaixam na Psicologia do Espaço Mental. Isso é lógico, uma vez que as suas origens, Lakoff e Johnson (1999) foram a uma das minhas maiores fontes. Assim, no meu imaginário, a psicologia académica encontrará a PNL através da submodalidade da localização. Antes disso, o panorama social será usado em todos os continentes. Espero que haja em todo o globo centros de panorama social como a PNL-Portugal.

 

 

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