Uma mancha apenas

Um contador de histórias, um grande amigo das regiões do Norte, contou-me um dia uma história que me ficou na memória e me tem acompanhado nos últimos anos. Alguém contou-lhe que quando era jovem, sentado no banco da escola num tempo em que ainda se escrevia com caneta em que era necessário repetidamente meter o aparo no tinteiro, se esquecia às vezes de tapar o tinteiro o que fazia com que a tinta coalhasse. Quando um daqueles grânulos ficava pegado ao aparo, ele deixava-o deslizar até que caísse exactamente através de um buraco que existia no chão, mesmo por baixo dos seus pés. Um dia, a professora pediu-lhe para ir à cave buscar qualquer coisa. Quando ele lá chegou, deparou-se imediatamente com uma grande mancha de tinta seca, exactamente debaixo do lugar onde estava sentado na classe. Quando voltou à sala de aula, o seu rosto estava lívido de pânico.

Quando anos depois me encontrava com este meu amigo contador de histórias, fiz referência ao miúdo em pânico perante a mancha de tinta seca. Eu achava ainda esta metáfora muito negativa. E o meu amigo, contador de histórias, contou-me o que ultimamente lhe tinha acontecido. Quando tirou a tampa que cobria o composto que iria servir de adubo no seu jardim, notou que ao longo do canto se erguiam jacintos que tinham desabrochado e encontrado o seu próprio caminho por entre os detritos.

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