Fase Implícita

Objetivo – Saber ouvir o outro pacientemente em diversos contextos.

Motivação/Significação/Ecologia

Esta capacidade reveste-se de uma importância crucial para melhorar a minha atividade diária quer como professora/formadora quer no contexto familiar e social. Além disso, liga-se a um dos aspetos da minha missão, ajudar/servir o próximo. Por último, ao perceber como se faz, torno conscientes aspetos pessoais, outrora inconscientes e isso torna-se uma mais valia no caminho do desenvolvimento pessoal. Pelas razões acima enunciadas, aprender esta capacidade é bastante ecológico para mim.
Aplicar em contexto –Saber ouvir vai: permitir-me compreender o outro a um nível mais profundo do que o mental; ir mais rapidamente ao encontro das suas expetativas; facilitar o diálogo e futuros encontros; desenvolver em mim as subcompetências abaixo enunciadas.

Critérios de evidência

A pergunta que se impõe é: Como é que eu sei que sei ouvir? Sei pelo que eu sinto e pelo que feed back (verbal e não verbal) que eu recebo. Por um lado, quando sinto que estou em estado de coach,o meu lado racional esbate-se, e estabelece-se entre nós uma conexão energética que me permite “sentir” o outro, os seus estados de alma, inclusive alguns sintomas físicos. O rapport estabelece-se automaticamente. Por outro lado, observo-o as suas manifestações não verbais.

Critérios que estiveram na base na escolha do perito

Pareceu-me importante encontrar as subcompetências, pois ajudar-me-iam na formulação de critérios para a escolha do perito. Eis as que encontrei: abertura/disponibilidade; calma/paciência; concentração/foco; sentir o outro. A segunda e a terceira nem sempre estão presentes em mim, embora as possua. Por vezes, fico impaciente quando o meu interlocutor conta algo com pormenores infindáveis ou se enreda em sucessivas repetições e também dou por mim a pensar na atividade seguinte que tenho para resolver. Tenho consciência que preciso aprimorar esta subcompetência através da meditação.

Perito/Justificação para a sua escolha

Encontrei um amigo de longa data que possui a habilidade de saber ouvir o outro! Fá-lo na perfeição! Sempre o admirei! Quer pela sua profissão (provedor de justiça), quer pela sua atividade numa associação cristã, onde presta apoio espiritual e assume funções na direção, foi aprimorando essa competência e tem conseguido excelentes resultados! Das muitas e longas conversas que temos tido em vinte anos de amizade, recordo algumas que me marcaram e aproveitei-as para este relatório, por isso, modelá-lo é um prazer e um desafio!
Assimilação Inconsciente – Neste exercício emergiu repetidamente um versículo bíblico “chorai com os que choram, alegrai-vos com os que se alegram”, palavras de Jesus, ensinando os discípulos! Surgiu depois uma série de setas vermelho escuro, com duas pontas, que flutuavam em diversas direções! Senti-me a perder a noção do espaço e do tempo e surgiu uma voz muito calma a recitar repetidas vezes o versículo! Quando terminei o exercício estava na posição em que o perito se coloca quando conversa comigo! Sentia-me muito tranquila, disponível, atenta, conectada com o meio que me envolvia, num estado em que dei atenção a pormenores e sensações novas relativamente ao local onde me encontrava! Emocionei-me quando vi retratos de família! Estava extremamente sensível ao que me rodeava! A simbologia vai ao encontro do que senti, pois remete para a tranquilidade, conexão, entrega, partilha, criação de algo novo. Também penso que a flutuação das setas remete para o caráter dinâmico, logo passível de uma transformação/mudança. Quando finalizei o exercício surgiu-me a metáfora da aranha e da formiga que me levou a outras reflexões mais profundas e que passo a transcrever como anexo.

Prática em contexto paralelo

Esta fase foi bastante desafiante: ainda em segunda posição, tentei praticar a competência numa situação imaginária. Necessitei de repetir várias vezes este processo até conseguir, em primeira posição, os resultados semelhantes aos do perito. No seguimento do exercício de modelagem que fizemos na última sessão, este foi o exercício que mais me surpreendeu pelos efeitos que produziu em mim! Os resultados remetem para um estado semelhante ao anteriormente enunciado! Creio “ter captado” o perito, pois gerou-se um misto de sensações diferentes daquelas que eu sinto em exercícios semelhantes!

Fase Explícita

Codificação

Nesta fase, fui conversar com o perito e retirei para este relatório as frases que me pareceram importantes: “saber ouvir é a base, sem ela não podemos ajudar”; “saber ouvir depende dos itens (subcompetências) que enunciou e também é importante a sensibilidade intuitiva, como refere o nosso irmão Max Heindel, sem ela não conseguimos calçar os sapatos do outro”; “a sensibilidade intuitiva é um processo que se desenvolve com a prática, sem ela não conseguimos entrar na mesma frequência e isso é importante para acedermos a elementos inconscientes do outro”; “a maioria das vezes as palavras não expressam o problema, cuja raiz está armazenada no inconsciente, que é a causa do problema, as pessoas enredam-se em palavras e não têm consciência do que as abala”;” tendo a sensibilidade intuitiva desenvolvida, por vezes, nem precisamos ouvir a pessoa, basta entrar na frequência dela e isso permite-nos aceder a informações que vêm do seu (dela)inconsciente”; “ se estivermos apenas no plano mental dificilmente conseguimos compreender o outro porque as palavras são enganadoras, é preciso sentir o outro “; “como as pessoas desconhecem que a causa dos problemas reside em si, culpam os outros, essa forma de se vitimizarem e se desresponsabilizarem atrasa o seu processo evolutivo”; “a sensibilidade intuitiva é um estado que se aprende e aperfeiçoa com a prática”.
Retirei aqui a subcompetência – sensibilidade intuitiva – que o perito deu maior ênfase, pois ela permite sentir o outro, numa linguagem pnliana, é fundamental para aceder à sua estrutura profunda! Também percebi que a sensibilidade intuitiva sendo um processo requer prática e que todas as outras subcompetências que acima enunciei estão presentes nela. Por último, saber escutar para bem servir é um propósito que está alinhado perfeitamente com os valores e missão do perito!
Retirei padrões de comportamento quando o perito está a ouvir: senta-se na cadeira com as costas direitas, une as mãos, coloca-as entre as pernas semi abertas, inclina-se ligeiramente para a frente e, quando estamos a falar, olha para baixo, em jeito de reflexão (penso que o seu sistema de representação principal é AD). Sempre que faz um comentário, levanta a cabeça, olha-nos e esfrega lentamente as mãos e dobra-as. De vez em quando, balança o corpo, acompanhando os pés o gesto: quando se balança para trás, os pés apoiam-se no calcanhar e quando se inclina para a frente os pés imitam um mata borrão. Este gesto funciona como descompressão ou quando a conversa toma um rumo mais ligeiro.
Estabelece rapport com o ouvinte, mostrando-se afável, tranquilo, aberto e disponível e vai utilizando conetores do discurso que indiciam que está a compreender, tais como, “com certeza”, “claro”, entre outros! Verbaliza as emoções que o outro sente, tais como, “é natural sentir-se triste”, “está desapoiada”, manifestando compreensão a um nível mais profundo do que o cognitivo! Corrobora o que dizemos com exemplos da sua vida, vai interrompendo para formular questões, esmiuçando o assunto, usa metáforas breves, “vai meter-se num saco de gatos”, “ninho de cobras”, evita repetições e utiliza uma adjetivação rica. Normalmente, só aconselha se pedirmos e dá bastante ânimo. Por último, num diálogo, geralmente, ouve mais do que fala!
Pensando em mim e noutros comunicadores que conheço, em comparação com o perito, penso que o essencial se centra no desenvolvimento da sensibilidade intuitiva, que engloba todas as subcompetências e vai além da mente; é um exercício que requer conexão e sintonia do coração e da alma para que os dois entrem na mesma frequência energética! Se o ato de escutar se resumir ao mental não conseguirei aceder ao inconsciente, meu e do outro, pois o consciente tem outra linguagem e outros mecanismos de expressão.

Teste

Com a finalidade de praticar esta competência de forma excecional, devem estar presentes dois critérios: por um lado, quem vai ouvir deve estar num determinado estado, semelhante ao estado de coach, e, por outro, será importante a conexão e sintonia; foi o essencial que retirei do processo de codificação!
Técnica -A arte de saber ouvir é um processo, tal como o perito referiu, não se consegue apenas exercitando uma determinada técnica, no entanto, aquela que proponho ajudará o emissor a conectar-se e consigo, de uma forma consciente e inconsciente, e com o outro, facilitando, posteriormente, a concretização do objetivo que enunciei.

  1. Sentado, feche os olhos; respire fundo; descontraia-se; sinta o corpo indo desde os pés, passando pelo tronco, até à cabeça; sinta tudo à sua volta: os cheiros, o som, o ar; está aberto ao mundo, disponível;
  2. Considere três pontos: cabeça, coração e abdómen. Ligue-os por um fio de ouro. Sinta-se uno. Deixe-se envolver por uma sensação de ternura, amor.
  3. Ancore este estado de plenitude tocando num dos pontos do seu corpo.
  4. Conte para si próprio em voz alta a metáfora da aranha e da formiga; visualize a história à medida que a conta.
  5. Faça um break
  6. Future Pace: vá ao futuro e leve consigo este maravilhoso sentimento de amor. Imagine-se numa situação de diálogo com o seu interlocutor. Visualize-se a ouvi-lo; mantenha o estado. Break. Repita mais uma vez o processo.

Avaliação

No módulo sobre a modelagem, e durante a feitura deste relatório, após a experimentação de alguns exercícios, tomei verdadeiramente consciência do corpo como um sistema de representação! Embora eu tenha as subcompetências do perito, verifiquei que não as usava de forma equilibrada e constante em situação de comunicação e que a minha atuação enquanto ouvinte valorizava mais amiúde a mente do que o coração. A sensibilidade intuitiva é algo que a minha filosofia trabalha através de vários exercícios específicos, requer bastante prática; tenho-a, mas não a domino, talvez porque não domine as subcompetências como um todo!
A um nível mais profundo penso que devo trabalhar um aspeto particular da aceitação, já que escutar o outro pressupõe aceder a informação que desconhecemos. Se eu julgar que não preciso dela, estou a dizer que a minha verdade me basta, estou a reduzir o meu mundo apenas a ela. Neste sentido, aceitação é fundamental para que possamos aceder a outras verdades e enriquecer o nosso mundo!
Também aprendi que, quanto maior for a conexão, maior será o impacto da nossa presença junto do outro e vice-versa!

 

Anexo

Havia uma aranha que queria guardar o conhecimento e a sabedoria da Humanidade num frasco. Cada coisa inteligente que lia ou descobria era sussurrada para dentro de um frasco que tapava rapidamente para que nenhum conhecimento pudesse escapar.
Quando a aranha supôs que o frasco estava cheio, decidiu guardá-lo numa toca que ela mesmo construiu no topo de uma árvore para que o conhecimento estivesse a salvo de qualquer ameaça ou distorção.
Assim sendo, atou o frasco à cintura, como tantas vezes já fizera, até ao cimo da árvore. Desta vez, não conseguia fazê-lo. O tamanho e o peso do frasco impedia-a de avançar.
Uma formiga que por ali passava, e em relação à qual a aranha mostrava algum desprezo por a considerar um pouco ignorante, aconselhou-a:
– Se queres subir à árvore, é melhor atares o frasco às costas e não à barriga.
A aranha apercebeu-se de que, apesar de ter cultivado a sabedoria durante quase toda a sua existência, lhe faltava o mais simples, o conhecimento que a experiência de vida lhe poderia fornecer.
A aranha, que, apesar de ligeiramente ignorante, não era desprovida de inteligência, compreendeu que, para obter o saber das coisas simples, deveria começar a escutar o que os outros, que talvez tivessem lido menos mas vivido mais, sabiam e lhe quisessem ensinar.
No final da história, a aranha partiu o frasco, considerando que era melhor a sabedoria ser posta em liberdade para estar ao alcance de todos aqueles que estivessem dispostos a aprender!

Nota: Há várias versões desta história, pois é um conto antigo, eu usei a de Jorge Bucay.

Ana Luísa Martins