I FEEL GOOD! Utilizando a música para induzir e alterar estados emocionais

Era uma sexta-feira de inverno, dia de escola, e a Marta tinha de acordar os filhos bem cedo. Era difícil tirá-los da cama ainda antes do sol nascer… Ensonados e aborrecidos, faziam tudo numa lentidão tal que, aos olhos da mãe, parecia ser propositada. Era preciso ajudá-los a vestir, comer e insistir repetidamente para se apressarem de modo a não chegarem novamente atrasados à escola. Quando a viagem de carro começava, o estado da Marta era já de grande ansiedade e os miúdos iam irritados e de mau-humor no banco de trás.

Mas nesta sexta-feira, a Marta usou uma estratégia diferente. Resolveu acordar os filhos ao som de “I Feel Good” de James Brown! O resultado foi tão surpreendente para Marta, que a partir daí passou a acordar os miúdos sempre com uma play-list divertida, que inclui temas como “Don’t Worry Be Happy” de Bobby McFerrin, ou “Happy” de Pharrel Williams, e só pára de tocar quando chegam à escola. Desde esse dia, os miúdos acordam quase sempre bem-dispostos, vestem-se e tomam o pequeno-almoço autonomamente, demoram muito menos tempo a sair de casa e, acima de tudo, não há birras! A viagem para a escola passou a ser o melhor momento do dia!

Este é um exemplo de como a música pode ajudar a induzir estados emocionais mais adequados a uma determinada situação e alterar totalmente a nossa experiência relativamente a esses momentos.

A música é o tipo de som que mais interfere com as nossas emoções. Ou porque funciona como âncora, trazendo à memória acontecimentos passados e com eles as respetivas emoções que lhes estão associadas, ou através da indução que decorre das características ou estrutura da música – tempo, tonalidade, volume, melodia e ritmo. Por exemplo: uma música composta sobre uma escala maior (tonalidade) induz e é tipicamente associada a um estado de Alegria, enquanto uma música composta sobre uma escala menor é facilmente associada a Tristeza ou Melancolia.

Muitas pessoas já usam a música de forma deliberada para melhorar a qualidade das suas experiências: para alegrar a viagem nos transportes a caminho do trabalho, para sentir mais energia e empregar ritmo enquanto praticam desporto, para animar o jantar com os amigos, ou para criar um ambiente romântico para o casal. As aplicações são muito variadas e as empresas também o fazem, principalmente nas zonas comerciais e nos media, e de forma bastante intencional. Ainda assim, esquecemo-nos muitas vezes desta poderosa ferramenta, que a maioria de nós tem hoje disponível a qualquer hora e em qualquer lugar, ou seja, no telemóvel.

Mas a escolha da música mais adequada nem sempre é simples. Na maioria das vezes a música é utilizada, não para alterar o estado indesejado, mas sim como forma de expressar e manifestar o estado atual. E assim, tendencialmente, aquele que sente o fatalismo escolhe o Fado, o que sente tristeza escolhe os Blues, o que sente melancolia escolhe Dark Indie, e o que se sente deprimido escolhe Grunge, numa tentativa de encontrar uma forma exterior de empatia com os seus sentimentos. Como consequência desta relação de empatia com a música, muitas pessoas acabam por reforçar ainda mais o estado indesejado em que se encontram.

Por outro lado, é importante compreender que se a distância entre o estado desejado e o estado atual for demasiado grande, convém escolher músicas que não provoquem grande dissonância. Ou seja, se o estado atual for de profunda tristeza, não há pior música para pôr a tocar que o “I Feel Good”do James Brown. O contraste seria tão grande que se tornaria ofensivo. Convém fazer uma escolha de músicas mais adequadas à situação e que possam ir alterando o estado de forma gradual.

A música é uma ferramenta simples, extremamente poderosa e que temos ao nosso dispor de forma cada vez mais facilitada. Ao adquirir a consciência de como pode ajudar ou agravar o nosso estado, torna-se mais fácil saber como a utilizar não só para nosso proveito mas também para criar melhores experiências para aqueles que nos rodeiam.

Coloquem a música ao vosso serviço, escolham as vossas play-lists de forma consciente e boas experiências!

Artigo de: Anabela Fernandes (Master em PNL)